O sol quente de final de verão batia-lhe na cara e funcionava como um bálsamo a acalmar os pensamentos conturbados que lhe passavam pela mente. O futuro estava próximo e ele sabia o que tinha de fazer. A espera é que o atormentava. O futuro... se antes a incerteza deste o atormentava, agora é a certeza que o faz refém de preocupações e medos de não estar à altura daquilo que quer fazer. Sempre guardou estas inseguranças para si mesmo, sempre se preocupando em transmitir calma e confiança. O sol a bater na água e os reflexos brilhantes que resultavam daí eram apaziguadores de uma forma quase hipnótica. São momentos como estes que lhe dão força. Crianças brincam no jardim há beira-rio. Brincadeiras que se vão tornando numa luta desigual. Três crianças a aproveitarem-se da sua superioridade numérica para humilhar uma quarta através de um jogo com uma bola. Aquela visão foi harmoniosamente de encontro à sua necessidade de estudar o passado para melhor compreender o futuro.
- Desculpe o ter deixado à minha espera diz a Dra. Joana ao entrar no seu gabinete, onde Tiago já estava à espera dela há alguns minutos.
- Não tem importância. Aconteceu alguma coisa?
- Não. Quer dizer, sim mas eu não o quero maçar com isso. Afinal eu estou aqui para o ajudar.
- A nossa relação médico - paciente é muito pouco ortodoxa para que haja definições de quem ajuda quem. Pelo menos já passámos esse ponto já faz algum tempo.
Joana sorri
- Sim, tem razão, embora eu já há muito tempo que não o vejo como paciente. Tem sido um bom amigo e a sua maneira de ver as coisas já me ajudou muito. Eu apenas...
- ... Está habituada a enfrentar tudo sozinha?
- Ia dizer que tenho dificuldade em falar de mim, mas também tem razão no que diz. Acho que é um defeito meu, querer lidar com tudo sozinha... a sua voz cede lentamente até ao silêncio enquanto se lembra de Ruben.
- Então... o que se passou?
- O quê? Ah, sim. Não foi nada demais, apenas um desentendimento com o Director. Não consigo compreender certas atitudes que ele tem e parece que me está sempre a esconder algo. Quando lhe perguntei do porquê da ala de segurança máxima já ter doentes sem as obras estarem completamente concluídas, tratou-me mal e disse que era incompetente. Gritou comigo à frente de todos e insinuou que eu apenas estava cá por especial favor. E eu estou cansada de isto estar constantemente a acontecer. Ser criticada por questionar coisas que sei que estão erradas. Por vezes dá-me vontade de sair daqui e nunca mais voltar.
- Compreendo...
- Ele sabe que eu preciso deste emprego e aproveita-se disso. O pior é que eu preciso mesmo disto e não me posso ir embora. Pelo menos, não nesta fase.
- Deixe-me contar uma história que me contaram há muito tempo atrás...
Muito tempo atrás, numa época em que o valor da vida humana ainda é inferior ao de hoje em dia, um nobre idoso era amado pelas pessoas que estavam na sua terra. Se fosse hoje, provavelmente não o seria, mas era bastante amável e bondoso para os que eram considerados inferiores a ele. E pelas leis da altura, era por seu direito estar acima dos outros, considerados plebeus. Direitos dado pelo Rei e por Deus. Apesar disso tudo a convivência era pacífica e o nobre era respeitado por todos aqueles que estavam sobre o seu poder. O nobre tinha dois filhos, diferentes entre si como a noite do dia. O primeiro, o mais velho e independente, era desprendido dos bens materiais e era normalmente encarado como o louco. Vítima de um desgosto de amor, andava constantemente embriagado e considerava toda a herança da família como algo insignificante sobretudo depois da sua perda. O segundo era o preferido do pai, apesar de ser muito diferente dele. Mas a sua paixão pela herança e pela cultura da família fazia os olhos do velho senhor brilhar apesar de não gostar da maneira como ele tratava os outros. Se quando era criança, o velho senhor lhe chamava a atenção, conforme foi crescendo e o seu pai ficando doente, pior ficou o seu trato. Depois do seu pai morrer e sendo ele apenas o único herdeiro para ocupar o seu lugar, já que o seu irmão mais velho não estava interessado a mudar o seu estilo de vida, as coisas mudaram nos seus domínios. Passou a ser exigido maiores tributações de impostos e mais trabalho exigido dos camponeses. Tem um nome específico mas eu agora não me recordo
- Sim, eu estou a percebê-lo, pode continuar.
- Pronto. Obviamente, estas mudanças não foram recebidas com agrado, mas como já disse, naquela época, era algo que estava no pleno direito da Nobreza poder usar e abusar do povo. Nobreza e não só, mas isso já são outras contas. No meio das muitas famílias afectadas por tudo isto, estava uma de um jovem camponês que o que mais ambicionava era casar-se com o seu grande amor de infância. Como era seu costume, o cruel nobre passeou certa vez por entre os seus campos de cultivo e presenciou a alegria e cumplicidade entre os dois. Eles estavam sentados a contemplar pequenas flores, no meio das ervas que se encontravam debaixo de uma árvore. Ele dizia-lhe que aquelas flores representavam o seu amor. Elas estavam lá desde sempre e no meio da vegetação, iriam continuar, imunes a tudo. E riam, fazendo juras de amor eterno. Essa alegria encheu-o de cólera e raiva. Penso que nem ele mesmo sabia explicar como é que aquilo o afectava. Mas não interessava. Era alguém mesquinho que apenas se preocupava em satisfazer os seus caprichos. Perguntou a quem o acompanhava quem eram aqueles dois jovens e no seu regresso a casa arquitectou uma maneira de acabar com aquele amor que lhe fazia ferver o sangue. Aumentou impostos sobre as duas famílias, o que obrigou tanto a ele como a ela, a trabalhar ainda mais. Além disso impediu-o de trabalhar no mesmo campo que ela. Meses mais tarde, ao passear novamente pelos campos, uma alegria distorcida enchia-lhe o ser. E satisfeito voltou ao conforto do seu lar. Não retirou os impostos e os dois jovens continuaram a trabalhar ainda mais, sem terem sequer tempo para estarem juntos. Mal nutrida e sob os efeitos extremos do trabalho no campo, ela rapidamente adoece com tuberculose e antes que ele se conseguisse lhe dar um último beijo com vida, morre. Assim que sabe do seu falecimento corre para a casa da sua família. Sem saber como reagir, cai aos pés dos pais dela a chorar. Não consegue dizer uma palavra. Apenas chorar. Na presença do seu corpo sem vida não consegue ficar muito tempo e foge de lá, até aos campos de cultivo. Ainda a chorar, a sua voz ecoa no meio da chuva que se faz sentir: Porquê, meu Deus?! Porquê levas quem Te serve de maneira mais fiel? Quem é mais inocente! Que mal fez ela?! Que mal fiz eu para ser punido desta maneira?! Ver o meu amor ser roubado de mim sem que eu pudesse fazer nada. Eu nunca pedi nada, eu apenas queria paz para viver com ela. Terei eu tanto para que possas roubar de mim o que mais precioso tinha? Responde!! Gritava ele mas ninguém respondia, apenas a chuva que continuava a cair indiferente à sua dor e pela segunda vez naquela noite ele cai sobre os seus joelhos e as suas lágrimas misturam-se com a chuva que cai sobre a sua face. Ele começa a gritar o nome dela, a chamar por ela. Senão te vou ver mais prefiro cegar a encarar um mundo sem a visão do teu sorriso
Relâmpagos começam a iluminar os campos escuros e através dessa luz momentânea consegue ver as duas flores. Resistentes ao rigor da tempestade, tal como o amor que sentia dentro dele. Ele a chorar, colhe uma flor e deixa a outra sozinha. E a tempestade acabou por passar eventualmente.
Joana fica em silêncio a olhar para Tiago até dizer:
- Inventou essa história agora mesmo não inventou?
Ele sorriu e responde:
- Já me conhece bem
- diz ele levantando-se Por muito pouca luz que tenhamos, iremos ter sempre a necessária para nos lembrarmos do que é realmente importante. sorri antes de se dirigir para a porta.
- Tiago
?
- Sim
?
- Obrigado.
Ele sorri e sai.
As crianças tinham desaparecido e o brilho do sol na água morria lentamente. Ele sorriu e lembrou-se daquilo que tinha dito à Dra. Joana tempos atrás. A luz do dia estava a desaparecer lentamente, apenas para dar lugar a uma outra. Não melhor, não pior.
Diferente.
E os receios do futuro desapareceram.















Comments
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e quero deixar aqui estas palavras, que vieram dessas, um pouco, com a imagem que tenho no meu quarto para me lembrar das mesmas coisas que fazem levantar qualquer um numa encruzilhada da vida.
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Gelo no abraço da Chama
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obrigado por tudo
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aproveito tb p t dar toda a força para n desanimares e boa sorte para o futuro.
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És um artista ^^
Tens jeito ^^
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The fiery windowsills of a setting sun.
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