A voz voltava sempre para a atormentar, fazendo com que Alice começasse a duvidar se era mesmo real. Mas não era o monstro que a perseguia noite após noite nos seus pesadelos que estava à sua frente. Uma pequena figura que parecia ser uma rapariga com a face oculta pelas sombras.
-Nós nunca vamos desaparecer, amor, fazemos parte de ti. Tu não podes seguir em frente e deixar-nos para trás como se fossemos um trapo velho e sujo. Vamos estar sempre aqui.
-Não és real. Não me assustas. Não mais, quem quer que sejas.
- Outra vez essa conversa! Estás a ficar repetitiva. Julgas mesmo que controlas algo aqui dentro?! Ora olhem para ela, com a ilusão de poder. Sempre tiveste a mania das grandezas!
Ela lembra-se do que lhe foi dito:”Basta fechares os olhos”
E ela fecha-os.
Correntes nascem do nada e prendem os pés e mãos da pequena menina. Grades surgem consecutivamente do chão em seu redor mantendo-a fechada, mantendo uma expressão desprovida de emoções. Ao abrir os olhos Alice ouve um riso sussurrado na sua mente. A pequena rapariga parte as correntes e ao tocar nas grades que a rodeiam estas desfazem-se em água. Mais uma vez Alice fecha os olhos e o chão por baixo da menina desaparece, fazendo com que esta caia. Por longos momentos não se ouve nada, mas quando Alice ia para respirar de alívio, a pequena menina saí a levitar do buraco lentamente e com um simples gesto da sua mão de palma aberta, este fecha-se instantaneamente. Assim que pousa os pés no chão, o seu corpo irrompe-se em chamas mas a pequena menina continua a não reagir e a escuridão salta sobre ela e apaga-lhe as chamas do corpo. O riso continuava a ecoar na sua mente. Facas, machados, espadas voam furiosamente em direcção a ela, mas as sombras colocam-se à frente da menina e engolem tudo o que lhes toca. A menina volta-se para fechar a porta que tinha ficado aberta. A luz desaparece. E tudo se torna escuro uma vez mais.
-Sei que deves estar confusa e talvez por isso seja hora de deixar este disfarce ridículo de vez. – e a sua voz começa a soar como realmente soaria a voz de uma pequena menina – Tanto sofrimento na cabeça da menina Alice, tanta dor… tanta perda… toda a gente se perguntava… como é que ela se aguenta? Tanta força que ela tem… pobre Alice… Toda a gente se perguntava a mesma coisa. Ela era um exemplo, de força, de coragem. Mas eu sei qual era o segredo da pequena Alice.
- Quem és tu?
- Oh parece-me bem óbvio… eu sou a cobarde, eu sou a fraca, a miserável. A que caiu infinitas vezes em abismos que não são meus. Quem sou eu…Alice? Quem sou eu? – E o negro torna-se num branco intenso que lhe ferem os olhos. A muito custo ela consegue reconhecer a face da pequena menina. Era a sua – Quem somos nós? Quem sou eu? Quem és tu?
- Quem sou eu?
- Quem sou eu?
- Quem sou eu?
- Quem sou eu?
- Quem sou eu? – perguntam mil vozes de meninas à sua volta. Elas correm e brincam como se ela não estivesse ali. E tudo desaparece, ficando apenas uma só.
- Lembras-te desta mesa? – aponta ela para uma mesa com 2 chaves – Lembras-te da escolha que fizeste? A tua consciência não te diz quem eu sou?
E Alice lembra-se nesse momento das palavras que lhe foram ditas anos atrás.
“Estarão dentro de ti todas as respostas quando só tiveres perguntas e estará dentro de ti a luz que precisas quando a escuridão te rodear.”
E fica sem reacção, quando ela lhe vê respondida a sua questão, sem dizer nada.
- Eu sou tudo aquilo que não quiseste ser. Toda a dor que disseste não ser tua. Quando os teus pais morreram, tu disseste em frente de um espelho que não eras tu que tinhas perdido os teus pais, que eles apenas tinham ido viajar por muito, muito tempo. Quando foste violada por um monstro humano qualquer, disseste em frente de um espelho que não eras tu que tinhas passado por aquilo. E o facto do teu namorado não se conseguir perdoar a si próprio por não ter te conseguido proteger, tu fugiste. Como poderias estar a ser constantemente lembrada daquilo que dizias não ter acontecido? – o eco de tudo o que a sua pequena contraparte dizia, era ouvido na sua cabeça como se aqueles fossem os seus próprios pensamentos. E são. – E fugiste. Uma nova pessoa. Esta nova pessoa tem um parto difícil devido os medos que estão por base. Então o que é que escolhes fazer para conseguires prosseguir? – ela enfia a mão dentro do seu peito e retira uma chave grande e enferrujada – A chave da consciência.
- Como é que…
Ignorando-a, a pequena menina fica a olhar fixamente para a chave enquanto a vai pousar na mesa, junta ás outras 3:
- Consciência… A consciência que usaste para superares os teus medos foi a mesma que agora te fez ver tudo o que disseste a ti própria que não existia. Nada podia estragar o teu conto de fadas! Tristeza, dor, saudade, solidão!! Não eras tu que sentias isso, era eu! Toda a gente te admirava mas tu apenas deixavas para outra pessoa enfrentar aquilo que tu devias enfrentar! Para fugires dos monstros à tua volta, criaste um dentro de ti. É o que eu sou – e a pequena menina começa a mudar a sua forma física para um monstro horrendo que começa a crescer até ficar enorme. – Apareço nos teus sonhos, ao qual tu foges, a pobre menina indefesa. – O monstro pega na Alice com a sua enorme mão e as suas unhas cravam-se no peito dela. – Sentes isto, Alice?! Sentes a dor?! É a dor que eu sinto cada vez que me lembro dos nossos pais, é a dor que sinto cada vez que fomos violadas. Não te preocupes, o que custa são os primeiros 20 anos, depois habituas-te!
Alice grita de dor. Tinha recuperado a consciência da sua memória, tinha enfrentado o seu passado mas tinha-se recusado a sentir a dor, até agora, que não lhe tinha sido dado escolha. Mais uma vez, as memórias passam pelo seu corpo e ela chora com toda a dor que escondeu de si. Grita pelos seus pais, pelo seu namorado mas a sua voz não fraqueja. Até que começa a tentar controlar a dor e arranja forças para dizer:
- De…desculpa.
- O quê?! Não ouvi.
- Desculpa!! – o seu corpo cai e à sua frente está a sua pequena contraparte novamente.
- E fica tudo resolvido? É isso? – diz ela sem a mínima demonstração de emoção. – todo o mal que me fizeste, todas as pessoas que enganaste, toda a tua hipocrisia… resolve-se assim?
- Eu não queria fazer mal a ninguém, não queria magoar ninguém. Só queria ser feliz…peço desculpa por não ser perfeita, peço desculpa por ter fugido, peço desculpa por todos os meus erros! Peço desculpa por tudo!! – grita de joelhos
- Tarde demais para isso. – E conforme diz isso, a pequena menina começa a transformar-se novamente na imensa besta. Alice levanta-se calmamente e diz:
- Nunca é tarde demais. – Volta-se para trás e dirige-se à mesa. Pega nas 3 chaves e volta-se para o monstro que urrava em direcção a si. – A dor é minha. – e fecha os olhos, fundindo as chaves ao seu peito.
Quando os abre está sozinha na sala. Não estava mais nua, envergando um longo vestido branco. Dirige-se à porta e uma luz mais intensa brilha mas desta vez não lhe fere a vista.
- Hey, hey… Como é que estás…? – pergunta Ruben cuidadosamente como as suas palavras ou tom de voz fossem cobertores que pusesse à volta de Alice.
- Estou exausta… - diz ela pausadamente e muito baixinho enquanto as lágrimas lhe correm pela cara abaixo.
- Estás a chorar…
- Estou apenas a lembrar-me dos meus pais… tenho saudades deles…
- Lamento… - diz Ruben enquanto lhe fazia festas na sua mão.
- Não lamentes… É bom senti-los dentro de mim.
















Comments
Gostei bastante.. Agora tou com pena que tenha acabado
Mas foi um final à altura
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my eyes are shooting sparks...
excelente imenso mm! ihihhi bom trabalho! beijinhoooo
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- Shhhh -
"peço desculpa por não ser perfeita"...
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» Psychosis - when everybody turns into tiny dolls and they have needles in their mouths and they hate you and you don't care because you have THE KNIFE! «
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"There are times when dreams come to be our only solace. We cry, we laugh, but we are alone in the middle of a insane world. " (me, in Meridian Tales of Darkness)
Member of =Apophysis
Gostei bastante da história toda! oh sim, gostei pois!
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Sleepwalker seducing me
I dare to enter your ecstasy
Lay yourself now down to sleep
In my dreams you're mine to keep
Muito obrigaaaado, fico muito feliz que tenhas gostado :*
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Beijoca gande
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Obrigaaaaaaaaaaaaaaaado
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Muito obrigaaaaaaaaaado
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vá, vá agora escreve o resto
quando publicares o livro, avisa
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