É um sítio novo para ele. A maresia, o som das ondas a bater, o céu estrelado. Tudo isto o convida para aquela praia abandonada, nesta noite em que ele procura por algo que nunca mais vai encontrar. Conforme desce os degraus que levam ao areal, é assaltado pelas recordações, pela tristeza que o leva a querer refugiar-se de tudo e de todos. Explodindo em lágrimas sem aviso, sente a força a esvair-se do seu corpo para dar lugar ao desespero. De todas as imagens, de todas as palavras que lhe aparecem em forma de questões, ele só consegue responder com outra questão: "Porquê??!!" E grita uma, duas, infindáveis vezes à espera de uma resposta. Mas a única resposta vem do mar. Ora furioso e imponente. Depois de rebentar em fúria as suas ondas na praia, era calmo e sereno, no momento em que a àgua é chamada de volta para mais uma vez dar lugar à fúria. Como se hipnotizado por este ciclo, o seu interior acalma e as lágrimas param de correr. Ele senta-se na areia e fica longos minutos a olhar para o mar, a ouvir a sua música. O seu eterno bailado que continua desde que há memória do homem e até antes disso. Do meio das ondas surge ela. Ele reage com indiferença, está completamente absorto pelo mar. Ela senta-se ao lado dele, diz-lhe que tem saudades dele, que agora é feliz, que quer que ele seja feliz também. Ele nada diz e ela pergunta-lhe porquê:
-Porque não és real.
Ela pergunta-lhe se consegue sentir o seu corpo molhado, enquanto se encosta a ele. Ele nada diz. Por uns momentos o silêncio impera apenas interrompido pelo quebrar das ondas. Ela deita a sua cabeça sobre o ombro dele e enquanto olha para o céu iluminado pelas estrelas diz-lhe como nunca estiveram os dois a olhar para as estrelas antes, recorda-lhe os momentos mágicos que tiveram os dois juntos, as palavras que foram ditas, as pequenas coisas que os faziam sorrir um para o outro, as conversas que tinham através dos seus olhares, as confidências, as partilhas. Ele deita uma lágrima e sorri pela forma apaixonada e carinhosa como ela fala e diz:
-Tenho saudades tuas.
Ela levanta a cabeça, olha-lhe nos olhos e responde:
-Eu sei.
E novamente mergulham num silêncio que não incomoda a nenhum dos dois. Ela encosta novamente a cabeça no seu ombro e diz-lhe que ele tem que ser forte, tem que conseguir continuar, que há muito mais para ele descobrir, que ele tem que manter o seu coração aberto. Ele nada diz.
Ela levanta a cabeça e beija-lhe os lábios. O seu toque é gelado, transferindo-lhe esse frio extremo para os seus. Ela olha-lhe nos olhos e uma imensidão de palavras é dita. Ela finaliza com:
-Amo-te.
Ele nada diz e ela levanta-se e anda até àgua tocar no seu corpo, até a noite e o mar a engolirem. Ele fica por breves momentos com o olhar fixo na escuridão, naquilo que não vê e diz finalmente:
-Eu sei.
Levanta-se e entra pelo mar a dentro. Anda e depois nada até a noite...o mar... o engolirem.
E o bailado continua, alheio a tudo...e infindável.
Tu és um génio.
A ilustração foi feita por um amigo meu e concordo, está fantástica!
Obrigado pelo carinho e elogio!
Tenho mesmo de arranjar tempo para lê-los todinhos, de ponta a ponta!
Nunca é tarde, vens sempre a tempo. Agora tenho pegado nos antigos para submeter nos grupos, por isso eles vão ter contigo aos poucos
Obrigaaaaaaado