Não tinhamos pista nenhuma acerca daqueles assassinatos misteriosos. Nada consistente. Aquando da segunda morte, os média... a opinião pública... as pessoas em geral exigiam resultados de nós. Os média ficaram sedentes por uma boa história e assim nasceu o Estripador de Lisboa, mesmo tendo passado quase seis meses entre os dois crimes. A primeira vítima tinha sido encontrada morta em Odivelas a 31 de Julho de 1992. Tal como a que pensávamos ser a segunda vítima foi estrangulada, encontrada em Entrecampos a dois de Janeiro de 1993, cortada e com alguns dos seus orgãos internos removidos. Na altura, eu era apenas o novato da equipa. O inexperiente, acabado de sair da faculdade e a querer algo mais, pelo mundo. Um idiota idealista. Quando aquele homem entrou no nosso escritório, a minha vida iria se transformar por completo
24 de Fevereiro de 1993
- Bom dia. diz o homem.
- Bom dia. Em que é que o posso ajudar? o agente Guilherme olha de relance para o homem, sem desviar por muito tempo os olhos do processo que tem em cima da secretária
- Eu gostava de falar com o ou os agentes responsáveis pelo caso do Estripador de Lisboa.
O agente Guilherme levanta o olhar simultaneamente ao do agente Martins, que pergunta:
- E podemos perguntar porquê?
- Tenho a solução para o vosso caso.
- Tem? agente Guilherme larga finalmente a pasta demonstrando assim todo o seu interesse em ouvir o que o homem tinha para dizer Viu alguma coisa?
- Eu sou o Estripador de Lisboa.
O olhar de desilusão na cara do agente Guilherme é evidiente que diz num tom desagradável:
- Mais um maluquinho que se sente só e precisa de companhia... porque é que não vai pas...
O agente Martins interrompe-o, colocando a sua mão sobre o ombro do agente Guilherme:
- Porque é que não conta tudo ao nosso colega Santos, que está ali na secretária ao fundo?
O homem olha para a secretária que lhe foi apontada por Martins e responde de forma seca e desinteressada:
- Obrigado.
O agente Guilherme diz para Martins, enquanto o homem se afasta na direcção da secretária do agente João Santos.
- Não sei como é que o puto tem paciência para aturar as tuas cenas.
- Hei, hei, todos passámos pelo mesmo. Tu e eu. É a ordem natural das coisas. Os novatos sofrem e é esse sofrimento que faz com deixem de ser novatos.
- És cheio de merdas.
O homem chega ao pé da secretária de João, que está atarefado a escrever um relatório numa máquina de escrever que nem nota a sua presença.
- Agente Santos?
- Sim? João volta-se para ele e fica imobilizado até o homem voltar a falar.
- O senhor é diferente.
João pisca os olhos como se a sua consciência tivesse acabado de despertar.
- Desculpe, estava a dizer...?
- Estava a dizer que o senhor é diferente. Não vê as coisas como todos os outros. O que é que vê?
- Nada, nada. Nada de importante. Agora diga-me, queria falar comigo?
- Sim. Vim confessar-me.
- Ok... e o que é que vem confessar?
- Eu sou aquele a quem a imprensa chama, o Estripador de Lisboa.
João olha para o fundo da sala e vê Guilherme a abanar a cabeça enquanto Martins esforça-se para não rir às gargalhadas.
- Ok, ok... eu percebo. Já estou a ver tudo. Já se divertiram todos. Agora posso voltar a trabalhar, por favor?
O homem ignora o que João acabou de dizer e senta-se na cadeira à frente da sua secretária.
- No que é que acredita, agente Santos?
João recomeça a escrever à máquina, não olhando para o homem enquanto diz:
- Acredito que já perdi tempo que chegue por hoje.
- Eu acredito que todos temos uma missão. Algo que nos move desde que nascemos até morrermos. Muitas das vezes não se dá conta disso mas... tudo o que acontece, sobretudo as coisas que não controlamos, vão na direcção desse objectivo que acaba por se tornar o nosso destino.
João quer continuar a escrever mas o discurso do homem, tanto as suas palavras como a sua voz, impediam-no de continuar.
- Olhe... eu não tenho mesmo tempo para isto e o que não era engraçado cinco minutos atrás de certeza que agora não se tornou mais en...
- Tudo bem. Deixe-me dizer apenas algo então. Não encontraram qualquer vestígio do assassino embora não tivessem havido cuidados em evitar o sangue derramado. Sem testemunhas, apesar de saberem que os corpos não foram apenas largados onde os encontraram. Todas elas eram prostitutas, na casa dos vinte anos e eram toxicodependentes. A arma do crime foi um objecto cortante mas não exactamente uma faca ou... bisturi.
- Com todo o frenesim que anda na comunicação social, o que está a dizer não é grande novidade.
- Talvez... o que ainda não chegou à comunicação social foi que o que pensam ter sido o segundo foi na verdade o terceiro homícidio.
- Se se está a referir ao homicídio da Trafaria, não temos qualquer elemento que os ligue. João está tão embrenhado na conversa que apenas agora se apercebe que não pode revelar dados de um processo em investigação e sobretudo sem autorização O senhor por acaso é jornalista?
- Não, não... diz o homem como se estivesse ficado extremamente desiludido com a pergunta Eu sou o que sou. Talvez tenha vindo cedo demais. O peso do que faço está a tornar-se insuportável e eu vim procurar por uma cura provavelmente ao local errado. Só lhe peço então uma coisa. Vá a este sítio... o homem tira uma folha de um pequeno bloco de notas e começa a escrever enquanto continua a falar - ...leve o que estiver lá dentro e depois logo ambos veremos se me pode ajudar ou não.
- E o que é que eu vou encontrar aqui?
- A minha longa lista de pecados. o homem retira uma chave do bolso e entrega-a a João E aqui está a chave dela.
Segui as indicações do homem para ir até uma estação de correios e a chave dava para um apartado. Lá dentro estava uma lista de de casos que estão em aberto. Homicídios, sem pistas. Pessoas de relevo na sociedade, indigentes, classe média, crianças. Fotografias que foram tiradas no momento em que elas morreram. Um doentia lista de troféus, foi o pensamento que me ocorreu. Uma pergunta não me largava. Porquê? E em que é que isto tudo estava relacionado com a morte das três prostitutas? Apesar de a hipótese do homicídio da trafaria estar relacionado com os outros dois ter sido abandonada pela polícia, havia algo em si que acreditava no homem. Mas não fazia sentido. Na segunda vítima não foram encontrados os mesmos sinais de mutilação que na primeira e na última vítima, que além dos orgãos terem sido removidos, os seios tinham sido decepados. Porquê mudar o modo de operação de alguém tão metódico? Porquê tirar os orgãos na primeira e terceira vítima e na segunda apenas queimar cigarros? Se fosse apenas para enganar a polícia... então porquê a confissão? Conforme folheei as folhas e as fotos, os porquês acumulavam-se na minha cabeça. Nada fazia sentido. A última folha tinha escrito em letras maísculas, e no que de início achei ser uma tinta vermelha estranha:
PORQUÊ?!
Ele queria que eu fizesse aquela pergunta, se não a estivesse a fazer já agora. De alguma forma estava a ser manipulado, mas isso não me interessava, estava disposto a ser manipulado se isso me levasse a resolver o caso. Não era o facto de querer deixar de ser o novato. Eu queria mesmo impedir que alguém mais morresse. Era bastante óbvio para mim que nada daquilo fazia sentido se eu não conseguisse responder àquela pergunta. E a minha mente explode em em raciocínios e novas formas da mesma pergunta. Quem estaria a fazer realmente aquela pergunta? Quem quereria que parasse? Quem pergunta ? Quem é que interessa? Quem é a vítima? Por quem estou interessado? Pela vítima. Quem é a vítima? Quem pergunta a quem? A mim. Quem interessa a vítima? A mim. A vítima. Quem quero que fale? Quem ele quer que fale? O que é que ele quer? O que é que ele quer que pare? Quem? A ele? Não, a vítima quer. Porquê? Porquê? Porquê? A resposta está na pergunta. O sangue. A tinta era o sangue da vítima. Da quarta vítima.














Comments
Gostei de ler.
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ouve: há uma chuva só nossa
no quarto-crescente dos lábios
e tantas canções a adiar
a linguagem do mar.
Muito obrigado, como sempre
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